
CAPÍTULO 1. A DÍVIDA
Meu nome é Claude Beck. Cirurgião. Tenho setenta e seis anos, operei corações durante quase cinquenta anos da minha vida, e devo confessar, sei que já não me restam muitos invernos. Antes que a pouca memória que tenho me deixe de vez, quero registrar a história de um menino que morreu na minha mesa numa tarde de dezembro de 1947 e saiu do hospital andando, semanas depois, com a camisa fechada sobre um peito novo.
Não. Não posso começar pelo menino. Preciso começar pelos meus infortúnios.
Nasci em Shamokin, Pensilvânia, terra de carvão. Lá, quando a mina desabava, os homens não formavam comissão para estudar o desabamento. Desciam e cavavam até encontrar seus companheiros, vivos ou mortos. Nunca esqueci isso.
Foi nos anos vinte, em Cleveland, que conheci o meu inimigo. Um paciente, uma cirurgia, e de repente o coração sob os meus dedos deixou de bater e começou a tremer. Sim, tremer. Quem nunca segurou uma fibrilação ventricular com as próprias mãos não sabe o que é. O coração não para. Muito pior: ele ferve. Milhares de contrações minúsculas e inúteis, um saco de vermes onde antes havia um músculo vigoroso e rítmico. Trabalha furiosamente e, de maneira inútil, não bombeia uma gota de sangue.
Lembro com precisão, massageei aquele coração até meus dedos não mais obedecerem. Esforço inútil. Ele morreu dentro da minha mão.
Depois disse à família que tínhamos feito tudo. Era quase verdade: tínhamos feito tudo o que sabíamos. Passei o resto da vida na distância entre uma coisa e outra.
Naquela noite entendi, de uma vez para sempre, que eu não era Deus. Nenhum de nós é. A vida não estava nos meus dedos; meus dedos apenas a seguravam por empréstimo. Mas entendi também outra coisa, e levei anos para ter coragem de dizê-la em voz alta: se Deus não precisava de mim, por que me deixou sentir o exato instante em que aquele coração desistiu de viver? Por que me deu mãos que nunca mais esqueceram?
Não se dá uma memória dessas a um homem sem lhe dar uma tarefa à altura.
Foi Carl Wiggers quem me mostrou o caminho. Fisiologista, do outro lado do nosso quarteirão de ciência. Nos cães dele acontecia o que os manuais juravam ser impossível: massagem para manter o coração bombeando e o cérebro vivo e, na hora certa, eletricidade direto no coração.2 O choque não reanimava nada. O choque apagava. Silenciava de uma vez todas aquelas fibras em pânico, e na calma o coração se lembrava de quem era, e recomeçava a bater.
Passei anos naquele porão. Meu amigo James Rand, engenheiro, construiu a máquina: uma caixa quase do tamanho de uma geladeira, cento e dez volts de corrente comum de tomada, e dois eletrodos de prata com o formato exato de duas colheres de sopa. Colheres para servir eletricidade a um coração nu. Ficava guardada no porão do hospital, entre os cães e a esperança.
Foi em 1941 que usei por duas vezes em gente. Isso mesmo. Duas vezes.7 E aqui está o que ninguém contou direito: a máquina funcionou. Nas duas vezes o choque desfez a fibrilação. E nas duas vezes o paciente infelizmente morreu horas depois. Eram corações velhos, maltratados pela doença e gastos por uma vida inteira. A eletricidade devolveu o ritmo; não podia devolver saúde ao músculo. Enterrei os dois e fiquei com a fama dos corredores: a máquina do Beck é aquela que não salva ninguém.
Zero a dois. Esse era o placar da minha vida quando o dezembro de 1947 finalmente chegou.
Hoje sei o que aquelas derrotas vieram me ensinar. Eu não posso escolher quem vive. Nunca escolhi. Deus não me fez juiz; me fez ferramenta. E ferramenta não pergunta. Ferramenta fica pronta. Há corações doentes demais para salvar, e eu segurei com minhas mãos dois deles. Mas há corações bons demais para morrer, e quando um deles caísse na minha mesa, eu não teria o direito de estar despreparado.
Um deles estava batendo a poucos quilômetros dali, num peito deformado de um menino de catorze anos chamado Dominic, filho de uma mãe que rezava o terço todas as noites diante de Nossa Senhora.
Ela pedia pelo filho enquanto eu treinava no porão.
Nenhum de nós sabia que estávamos trabalhando juntos.
CAPÍTULO 2. O MENINO
Dominic Russo tinha catorze anos e nunca tinha tirado a camisa na frente de ninguém.
Little Italy, Mayfield Road. O pai, Salvatore, fundia aço na siderúrgica junto ao rio, dez horas por dia, e voltava para casa com o cheiro de metal que nunca saía das mãos. A mãe, Rosa, costurava para as senhoras de Murray Hill e rezava o terço todas as noites diante de uma pequena imagem de Nossa Senhora que atravessara o oceano com ela, embrulhada numa toalha de linho, no porão de um navio.
Três filhas e um filho. O caçula. O esperado menino que Rosa pedira durante anos, novena após novena, na igreja de Holy Rosary. Quando ele nasceu, em 1933, no fundo da Depressão, ela o batizou com o nome do santo a quem Nossa Senhora entregou o Rosário. Dominic. Para que nunca esquecesse de quem o havia mandado.
O menino nasceu perfeito, disseram as parteiras. Mas o peito, com os anos, foi cedendo. O esterno afundava para dentro como se um polegar invisível o pressionasse, devagar, ano após ano. Pectus excavatum, escrevi na ficha, com a frieza que os formulários exigem. Os meninos da rua eram menos técnicos e mais cruéis. Peito de funil. Peito furado.
Dominic aprendeu cedo a se esconder. Nadava de camisa no lago Erie, quando nadava. Inventava febres nos dias de educação física. Vestia-se de costas no vestiário, rápido como quem comete um crime. Aos catorze anos, um menino não teme a morte. Teme o riso. E o riso dos outros meninos doía mais fundo que qualquer bisturi.
Foi Rosa quem notou o resto. O filho que parava no segundo lance de escada. O fôlego curto nas ladeiras de Cleveland. O coração que, espremido naquele peito deformado, trabalhava apertado como um homem grande num quarto pequeno.
Salvatore, homem de poucas palavras, disse a única frase que importava: "Se tem conserto, vamos consertar."
Fizeram as contas na mesa da cozinha, num caderno de capa preta. As economias de uma vida, o dinheiro da costura, um empréstimo do cunhado. E procuraram o hospital universitário, onde souberam que havia um cirurgião que entendia muito de peitos e corações.
Foi assim que Dominic Russo entrou na minha vida. Uma quinta-feira de dezembro de 1947, uma semana antes da cirurgia.
Subi para vê-lo na enfermaria no fim da tarde. Encontrei um menino magro, sofrido, de cabelo escuro e olhos atentos, sentado na cama com um gibi do Capitão América sobre os joelhos. A mãe ao lado, o terço enrolado no pulso como uma segunda pele.
Examinei o peito. O afundamento era profundo, o coração deslocado, comprimido. E enquanto eu auscultava aquele coração jovem, forte, batendo firme contra a campânula do meu estetoscópio, apesar da prisão de osso ao redor, lembro de ter pensado, com uma clareza que ainda hoje me assombra: eis um coração excelente. Um coração de setenta anos pela frente.
Dominic me fez uma única pergunta.
"Doutor, depois da operação, eu vou poder tirar a camisa na piscina?"
Catorze anos. A morte a uma semana de distância, e a pergunta dele era sobre o verão.
"Vai", eu disse. "E vai nadar melhor que todos eles."
Rosa me acompanhou até a porta. Segurou minha mão entre as dela, e senti as contas do terço contra a minha palma.
"Il dottore ha le mani", ela disse. "Ma è la Madonna che le guida." O doutor tem as mãos, mas é Nossa Senhora quem as guia.
Concordei com a cabeça, por gentileza. Eu era um homem de ciência. Media eletricidade em volts e ampères, cronometrava massagens em cães, publicava em revistas conceituadas com árbitros severos. Guardei a frase dela na gaveta onde os cirurgiões guardam as superstições das mães.
Hoje, aos setenta e seis anos, eu devolvo a frase à luz. Porque na semana seguinte, quando o coração excelente de Dominic Russo se transformou num saco de vermes debaixo da minha mão, e quarenta e cinco minutos se abriram diante de mim como um abismo, foi alguma coisa que me guiou.
A cirurgia era eletiva. Guardem bem essa palavra. Eletiva. Escolhida. Marcada com antecedência no quadro do centro cirúrgico, entre uma hérnia e uma vesícula. Ninguém morre de cirurgia eletiva. Foi o que a medicina inteira sempre acreditou.
Na sexta-feira de manhã, Rosa entregou o seu filho às sete horas na porta do bloco. Beijou-lhe a testa. Pendurou-lhe no pescoço uma medalhinha da Imaculada, dezembro é o mês dela, e disse que estaria ali fora, esperando, rezando.
A enfermeira, seguindo o protocolo, retirou a medalhinha antes da anestesia. Objetos de metal não entram numa sala de cirurgia.
O único metal que entrou comigo naquela sala foram os instrumentos.
Os eletrodos de prata ficaram no porão. Onde sempre estiveram. A máquina que não salvava ninguém obviamente não fazia parte de nenhum protocolo, de nenhuma cirurgia eletiva, de nenhum plano.
Deus, se me permitem a ironia de um velho, calejado pela vida, guardava para mim outros planos naquela sexta-feira.
CAPÍTULO 3. O FECHAMENTO
Toda catástrofe da minha vida começou com a frase "está indo tudo bem".
Sexta-feira, oito e quinze da manhã. Dominic dormia profundamente sob o éter, os braços abertos em cruz sobre a mesa, e eu abri o peito dele como quem abre uma janela emperrada há catorze anos.
A cirurgia era grande, laboriosa, mas era conhecida. Libertar o esterno afundado, ressecar as cartilagens deformadas, devolver ao tórax a forma que a natureza tinha prometido e não cumprido. Trabalho de carpintaria fina, osso e paciência. Só isso.
E deu tudo certo. Peço que acreditem em mim: deu TUDO certo.
Quase quatro horas de cirurgia limpa. Sangramento mínimo. O esterno levantou, o peito de funil virou peito de menino normal. Lembro do momento em que olhei o tórax reconstruído e pensei: ficou perfeito, no próximo verão, esse garoto tira a camisa na piscina.
A sala inteira relaxou. Quem é do ofício conhece esse instante. A parte perigosa ficou para trás, resta o fechamento, que é a caligrafia final de uma carta já escrita. O instrumentador começou a contar as compressas. O residente comentou qualquer coisa sobre o jogo dos Browns no domingo. O anestesista, meu velho companheiro de tantas batalhas, afrouxou os ombros pela primeira vez em quatro horas.
Eu suturava. Plano por plano, ponto por ponto, subindo em direção à pele.
Eram doze e vinte, aproximadamente, quando o anestesista disse as três palavras.
"Perdi o pulso!"
Existe um silêncio específico de centro cirúrgico que eu queria nunca ter conhecido. Não é ausência de som. É o som de cinco pessoas parando de respirar ao mesmo tempo.
"Como assim, perdeu o pulso?"
"Não tem pulso, Claude. Pressão zero. Não tem NADA. Está cianótico!"
Olhei para o campo. A ferida quase fechada, a pele quase pronta, a cirurgia quase acabada. Quase. A palavra mais traiçoeira da medicina.
Um menino de catorze anos. Coração excelente. Cirurgia eletiva. Impossível.
Foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, é a memória mais lenta que carrego. Gritei por uma lâmina. Desfiz em segundos o que tinha levado uma hora para coser. Reabri aquele peito rápido, descendo de volta ao lugar de onde tinha acabado de sair.
E enfiei a mão.
Meus dedos encontraram o coração de Dominic Russo e o mundo inteiro se reduziu ao que eles sentiram.
Ele não estava parado. Estava fervendo. O saco de vermes. O tremor que eu conhecia há muitos anos, que tinha me acompanhado por duas décadas de porão, que tinha morrido duas vezes dentro da minha mão em 1941. Fibrilação ventricular. O inimigo tinha vindo buscar exatamente o coração que não tinha direito de levar.
"Fibrilação", eu disse. E ouvi minha própria voz dizer a frase seguinte com uma calma que até hoje não sei de onde veio.
"Ele não sai desta mesa."
Comecei a massagem. Mão em concha, o coração do menino inteiro dentro dela, aperta, solta, aperta, solta, sessenta vezes por minuto, o ritmo que eu tinha ensaiado mil vezes em corações de cachorro sem nunca imaginar que o ensaio geral seria com o filho de Rosa.
E então dei a ordem que nenhum protocolo previa, que nenhum comitê autorizou, que nenhum formulário jamais mencionou.
"Desçam ao porão urgente. Tragam a minha máquina."
O residente me olhou. Um segundo de hesitação, aquele segundo em que passou pela cabeça dele tudo o que passaria pela cabeça de qualquer um: a máquina que não salva ninguém.
"VÃO BUSCAR AGORA."
Ele correu. A porta bateu. E ficamos nós: cinco pessoas, um menino aberto, um coração fibrilando nas minhas mãos, e quarenta e cinco minutos diante de nós que eu ainda não sabia que seriam quarenta e cinco.
Do lado de fora, num banco de corredor, Rosa Russo rezava o terço sem saber que, naquele exato momento, seu filho estava morto.
E eu, que nunca fui de rezar, comecei a conversar com Deus da única maneira que minhas mãos conheciam.
Um coração que se recusava a bombear. Aperta. Solta. Aperta. Solta.
CAPÍTULO 4. QUARENTA E CINCO MINUTOS
Quarenta e cinco minutos é o tempo de uma missa semanal. O tempo de meia partida de futebol. O tempo que Rosa levava para rezar o terço inteiro, com as ladainhas.
Massageando um coração sem vida, quarenta e cinco minutos é o tamanho exato da eternidade.
Aperta. Solta. Sessenta vezes por minuto. Eu era o coração de Dominic Russo. Suas artérias enchiam quando minha mão fechava, esvaziavam quando ela abria. O sangue dele ia ao cérebro porque eu mandava. A vida daquele menino tinha se reduzido a uma pergunta de músculos: quanto tempo vai aguentar a mão de um homem de cinquenta e três anos?
Wiggers tinha me ensinado a resposta no porão, com os cães. A massagem não ressuscita ninguém. Nunca ressuscitou. Ela apenas compra tempo. Mantém o cérebro molhado de sangue para que o choque, quando vier, se vier, devolva um menino inteiro, vivo, e não uma casca respirando.
"Pupilas", eu pedia.
"Reagindo", respondia o anestesista, a lanterna na mão, ventilando oxigênio puro.
Reagindo. A cada vez que ele dizia essa palavra, eu traduzia: lá dentro, atrás daquelas pupilas, Dominic ainda estava em casa. Esperando a luz voltar.
Aos vinte minutos, minha mão direita virou pedra. A cãibra subiu pelo antebraço como fogo lento. O assistente assumiu por dois minutos, contados em voz alta, enquanto eu abria e fechava os dedos mortos de dor. Depois retomei. A mão de um homem é capaz de aguentar o que a alma dele mandar.
E enquanto apertava e soltava, fiz a conta de tudo o que eu não tinha.
Não havia um único estudo provando que aquilo funcionava em seres humanos. O primeiro ensaio clínico randomizado da história da medicina só seria publicado no ano seguinte, em Londres, sobre um antibiótico para tuberculose.4 A própria palavra "randomizado" ainda não havia estreado no mundo.
Não havia consentimento informado. A expressão sequer existia. Rosa tinha assinado a internação, não a eletricidade. E o único dono daquele coração dormia, de peito aberto, sem jamais poder opinar.
Não havia autorização do hospital. A máquina era verba de pesquisa, registrada como equipamento de laboratório. Nenhum diretor jamais soube que ela podia tocar um paciente.
Não havia comitê de ética, porque comitês de ética não existiam.
Não havia agência para aprovar a máquina, porque no mundo inteiro nenhuma agência aprovava máquinas.
E havia, contra tudo isso, um placar. Onde eu perdia feio. Zero a dois.
No outro prato da balança, um menino de catorze anos que na quinta-feira tinha me perguntado da piscina.
Hoje vivemos o tempo dos formulários. Três assinaturas para uma aspirina, um advogado atrás de cada porta, e jovens cirurgiões que aprendem, antes da anatomia, a arte de se proteger. Não os culpo. O mundo deles é outro. Mas naquela tarde de 1947 eu não tinha medo de advogado. Um advogado não iria jamais me tirar o sono.
O que me apavorava era pior, e tinha trinta metros de comprimento: o corredor até o banco onde Rosa rezava. Eu já tinha feito aquela caminhada algumas poucas vezes. Já tinha dito "fizemos tudo" a algumas famílias, sabendo que era quase verdade. Passei os últimos vinte anos me preparando para nunca mais precisar dizer o quase.
E se o choque desse errado? Fiz essa conta também, com a mão dentro do menino. Errado mesmo era ele morrer. Sem ao menos tentarmos. E ele já estava morto. A fibrilação já tinha roubado tudo o que havia para roubar. De zero não se desce.
Restava apenas a máquina que não salvava ninguém.
Soube depois, muito depois, que ao meio-dia, quando o sino da capela tocou, Rosa rezou o Angelus no banco do corredor. O Anjo do Senhor anunciou a Maria. Vinte minutos depois, o coração do filho dela parou. Ela estava a trinta metros e a um universo de distância, pedindo à Mãe de Deus que cuidasse do menino.
Eu fui, naquela tarde, a resposta mais estranha que uma Ave-Maria já recebeu.
Aos quarenta minutos, ouvi o corredor. Rodinhas de metal no piso de pedra, passos correndo, uma porta batendo na parede.
A geladeira entrou na sala.
Caixa de aço até a cintura de um homem, mostradores de vidro, cabos grossos como cobras pretas. E, pendurados na lateral, embrulhados em pano esterilizado, os dois eletrodos de prata. As minhas colheres.
"Tomada", eu disse.
Ligaram o cabo na parede. A mesma parede, a mesma corrente, os mesmos cento e dez volts que naquele momento acendiam todas as lâmpadas do hospital, inclusive a do corredor onde Rosa rezava.
O ponteiro do voltímetro subiu, estremeceu e ficou de pé. Vivo. Cento e dez.
Quarenta e cinco minutos. Zero a dois. Terceira tentativa.
"Colheres", eu disse.
E estendi a mão esquerda, porque a direita ainda apertava e soltava, apertava e soltava, e só ia parar quando a eletricidade assumisse o turno.
CAPÍTULO 5. CENTO E DEZ VOLTS
As colheres de prata eram muito leves. Sempre me espantou isso. Vinte anos de trabalho, dois mortos, uma máquina quase do tamanho de uma geladeira, e no fim tudo se resumia a dois objetos que pesavam menos que um bisturi.
Retirei a mão direita de dentro do peito e, pela primeira vez em quarenta e cinco minutos, o coração de Dominic ficou sozinho. Fibrilando. Posicionei uma colher atrás do coração, a outra na frente. O músculo trêmulo entre as duas conchas de prata, como uma hóstia entre as mãos de um padre.
"Atenção! Ninguém toca na mesa."
A sala toda recuou um passo. O anestesista soltou o balão. Cinco pessoas e nenhuma respiração.
"Atenção! Agora."
Um ampère e meio de corrente alternada atravessou o coração do menino. O músculo contraiu inteiro, uma vez, duro como um punho fechado. Soltei o pedal. Olhamos.
Fibrilando.
Ainda. Igual. O saco de vermes, intacto, imune, zombando de mim diante de todos.
Ninguém disse nada, e eu ouvi tudo. A máquina que não salva ninguém. Zero a três. Confesso agora o que não confessei naquela sala: por um segundo inteiro, o abismo me olhou de volta. Vinte anos de porão para descobrir, diante de um coração de catorze anos, que eu talvez fosse apenas um colecionador de derrotas com eletrodos de prata.
Um segundo. Foi o que durou. Porque a mão direita voltou sozinha para dentro do peito e retomou o bombeamento, aperta, solta, aperta, solta, antes mesmo que o desespero terminasse a frase.
E o porão me devolveu uma última lição.
Mautz. Um colega do laboratório, anos antes, tinha mostrado que a procaína acalma o músculo cardíaco.3 Anestesia as fibras em pânico. Reduz a fúria elétrica que sustenta a fibrilação. Um coração menos irritado resiste menos ao silêncio.
"Procaína."
A seringa veio. Injetei diretamente no músculo do coração o mesmo anestésico que os dentistas usam para arrancar um dente. Que ironia a medicina: para salvar a vida daquele menino, primeiro anestesiei o coração dele, como quem pede calma a um afogado antes de puxá-lo.
Massageei mais alguns segundos, deixando a droga circular pelas fibras. A sala inteira em silêncio. Só o som do balão de oxigênio e das minhas costelas contra a mesa.
Reposicionei as colheres.
"Atenção! Choque de novo. Agora."
Segundo choque.
O coração contraiu, duro, mais uma vez. Soltei o pedal.
E então aconteceu a coisa mais aterrorizante da minha vida: o coração de Dominic Russo parou completamente.
Imóvel. Nem batimento, nem fibrilação, nem tremor. Nada. Um músculo parado dentro de um peito aberto é a imagem mais parecida com o fim do mundo que um cirurgião pode ver.
Mas Wiggers tinha me ensinado, mil noites de porão tinham me ensinado: o choque não ressuscita. O choque só apaga. Silencia todas as fibras de uma vez. E no silêncio, se Deus quiser, o coração se lembra de quem era e volta a bater.
Um segundo. Dois. Três.
Uma contração discreta.
Tímida, torta, quase uma desculpa. Depois outra. Outra. Minha mão mergulhou e acompanhou, aperta, solta, agora não mais mandando, apenas ajudando, como quem segura o selim da bicicleta de um filho que está quase, quase equilibrando sozinho.
Após alguns minutos, já havia autonomia. Soltei o coração.
E o coração de Dominic Russo bateu sozinho. Rápido, quase desesperado, cento e setenta e cinco batimentos por minuto, um potro desembestado galopando para longe da morte. O eletrocardiógrafo riscava aquele galope no papel e eu olhava o traçado como quem lê a primeira carta de um filho que esteve na guerra.1
"Pressão braquial cinquenta", disse o anestesista. E logo na sequência, com a voz quebrada de um homem que eu nunca tinha visto quebrar, ele disse as três palavras. As outras. As que desfazem as primeiras.
"Temos pulso, Claude. Temos pulso!"
"Pupilas fotorreagentes!"
Cinquenta de pressão. Já li mostradores marcando duzentos. Nenhum número foi tão bonito.
Fechei o peito de Dominic pela segunda vez no mesmo dia. Os mesmos planos, os mesmos pontos, os mesmos fios de sutura. Minha mão direita tremia de cãibra e cansaço, e apesar de tudo, nunca suturei tão bem na minha vida.
Três horas depois, na sala de recuperação, Dominic finalmente abriu os olhos.
Perguntaram o nome. "Dominic Russo." Perguntaram onde estava. "No hospital." O cérebro inteiro, intacto, em casa. Quarenta e cinco minutos de morte e nem uma vírgula perdida.
Então ele me viu, engoliu seco, e fez a segunda pergunta mais importante da vida dele.
"Cadê minha mãe?"
Antes de sair, pedi à enfermeira a medalhinha da Imaculada, aquela que o protocolo tinha retirado. Pendurei eu mesmo no pescoço do menino, sobre o curativo que cobria o peito novo.
O protocolo já tinha sido violado tantas vezes naquela tarde. Uma a mais, por Rosa.
E fui fazer a caminhada de trinta metros.
Rosa levantou do banco antes que eu abrisse a boca. Mães sabem ler rostos de cirurgião; é um idioma que elas aprendem na porta dos hospitais. Ela leu o meu e caiu de joelhos no corredor, o terço apertado contra a boca, agradecendo em italiano a alguém que, sinceramente, não era eu.
Na hora, o cientista que fui registrou aquilo com um espanto quase ofendido: quarenta e cinco minutos de massagem, vinte anos de pesquisa, cento e dez volts, e o crédito foi todo para o céu.
Hoje, o velho que aqui escreve estas linhas, com humildade sincera, já não disputa a autoria.
"Il dottore ha le mani", ela tinha me dito na quinta-feira. "Ma è la Madonna che le guida."
Eu que passei a minha vida medindo o que as mãos eram capazes de fazer. Nunca consegui medir com precisão o que realmente as guiava.
EPÍLOGO. BOM DEMAIS PARA MORRER
Dominic Russo recebeu alta do hospital na véspera do Natal de 1947.
Saiu andando, tranquilo, entre o pai e a mãe, com a camisa fechada sobre um peito novo e uma medalhinha da Imaculada por baixo dela. Da janela do segundo andar, eu vi os três descerem a rua sob a neve fina que caía. Rosa parou na calçada, virou-se para o prédio e fez o sinal da cruz. Salvatore tirou o chapéu. O menino só queria saber de chegar em casa.
Nenhum deles jamais soube da máquina. Contei brevemente a Rosa que o coração tinha parado e que nós o tínhamos feito voltar. Ela não perguntou como. Mães não perguntam como. Mães sabem.
No verão seguinte, soube pela enfermeira da escola que Dominic foi à piscina pública e tirou a camisa. Havia uma cicatriz vertical no meio do peito, e os mesmos meninos que riam do funil agora pediam para ver de perto. Ele nunca contou a ninguém que tinha morrido. Contou que tinha sido operado, o que era verdade pela metade. A outra metade era só minha, dele, e de cinco pessoas numa sala.
Escrevi o caso com Pritchard e Feil. Saiu no JAMA, volume 135, páginas 985 e 986.1 Duas páginas. A maior história da minha vida coube em duas páginas de prosa seca, com traçados de eletrocardiograma no lugar da emoção. A ciência exige que se retire a alma do texto antes de publicar. Obedeci. Estas linhas que agora escrevo, aos setenta e seis anos, são a alma que ficou de fora, pagando a dívida de vinte e quatro anos de silêncio.
E há uma coincidência daquele ano que carrego comigo até hoje. Meses antes da cirurgia, em agosto de 1947, juízes em Nuremberg escreveram dez regras para a experimentação em seres humanos, depois de julgarem médicos que tinham usado pacientes como meio para as suas experiências.8 No mesmo ano, em Cleveland, eu usei uma experiência como meio para salvar o meu paciente. Toda a ética médica que virá, com seus comitês e formulários e assinaturas, vai passar a vida inteira tentando escrever a diferença entre essas duas frases. Eu senti esta diferença nas mãos.
O experimento a serviço do doente, nunca o doente a serviço do experimento. É só isso. Sempre foi só isso.
Depois, o mundo fez o que o mundo faz. Em 1950 abrimos cursos e ensinamos a técnica a mais de três mil médicos e enfermeiras.7 Em 1955, um médico caiu fulminado por um infarto nos degraus do nosso hospital, e pela primeira vez na história um coração parado FORA de uma sala de cirurgia foi trazido de volta.5 Depois vieram os choques através do tórax fechado. Aí vieram as máquinas nas ambulâncias, os desfibriladores cada vez menores. A máquina que não salvava ninguém se multiplicou pelo mundo inteiro e até hoje salva milhares de vidas.
Ela só precisava de um menino que provasse o seu valor.
Todo mês de dezembro recebo um cartão de Natal com um sobrenome italiano no remetente. A assinatura mudou com os anos: primeiro a letra redonda de um menino, depois a letra apressada de um estudante, hoje a letra firme de um homem de trinta e oito anos, casado, dois filhos. Todo verão ele os leva à piscina. E tira a camisa.
O meu coração também vai parar. Acredito que falta pouco. Não vou reclamar: é um coração gasto, usado até o fio, e teve mais do que a sua conta. E eu sei que ele não é bom demais para morrer.
Mas se um dia, caro leitor, a vida puser na sua mão um coração que é, um coração de catorze anos, de setenta verões por viver, tremulando sem pulsar, injustamente debaixo dos seus dedos, lembre-se de um velho cirurgião de Cleveland e da única regra que os quarenta e cinco minutos me ensinaram:
Jamais peça licença à morte. A morte nunca pediu licença a ninguém!
NOTA DO AUTOR
Esta história é real.
Claude Schaeffer Beck (1894-1971) realizou, em 1947, no University Hospitals de Cleveland, a primeira desfibrilação bem-sucedida de um coração humano.1 O paciente era um menino de catorze anos, operado eletivamente de uma deformidade congênita do tórax.7 A fibrilação ventricular ocorreu durante o fechamento. São todos fatos reais documentados: os quarenta e cinco minutos de massagem cardíaca direta, o desfibrilador experimental construído pelo engenheiro James Rand e guardado no hospital, a corrente alternada de 110 volts e 1,5 ampère aplicada por eletrodos de prata diretamente no coração, o fracasso do primeiro choque, a procaína intracardíaca,3 o sucesso do segundo, a taquicardia a 175 batimentos, a pressão braquial de 50, o despertar três horas depois, com o menino respondendo perguntas, e a recuperação completa, sem qualquer sequela neurológica.1 As duas tentativas fatais de 1941, os experimentos de Carl Wiggers,2 a publicação de duas páginas no JAMA, o Código de Nuremberg de agosto de 1947,8 a ausência de qualquer ensaio randomizado (o primeiro da história seria publicado apenas em 1948),4 os cursos que treinaram milhares a partir de 1950 e a expressão "hearts too good to die", do próprio Beck,6 também são registro histórico.
O nome do menino jamais foi divulgado. Dominic Russo, sua família, sua paróquia, a medalhinha e os diálogos são fruto da criatividade deste autor, construídos para devolver rosto e voz a um paciente que a história preservou anônimo.
Este relato foi elaborado pelo Dr. Gustavo Carvalho, com o auxílio da Amigo Intelligence, e é baseado em uma história real.
Gustavo Carvalho, MD, MBA, MSc, PhD, é Cirurgião Geral, Professor Adjunto de Cirurgia Geral da UPE, pós-graduado em Cirurgia Digestiva pela Universidade Keio (Japão) e Consultor de Inteligência Artificial da Amigo Tech.
O texto tem apenas caráter informativo e literário; não constitui aconselhamento médico.
Instagram: @doutorgustavocarvalho
REFERÊNCIAS
1. Beck CS, Pritchard WH, Feil HS. Ventricular fibrillation of long duration abolished by electric shock. JAMA. 1947;135(15):985-986. DOI: 10.1001/jama.1947.62890150005007a.
2. Wiggers CJ. The physiologic basis for cardiac resuscitation from ventricular fibrillation: method for serial defibrillation. Am Heart J. 1940;20:413-422.
3. Mautz FR. The reduction of cardiac irritability by the epicardial and systemic administration of drugs as a protection in cardiac surgery. J Thorac Surg. 1936;5:612-628.
4. Medical Research Council. Streptomycin treatment of pulmonary tuberculosis. BMJ. 1948;2(4582):769-782.
5. Beck CS, Weckesser EC, Barry FM. Fatal heart attack and successful defibrillation: new concepts in coronary artery disease. JAMA. 1956;161(5):434-436.
6. Beck CS, Leighninger DS. Hearts too good to die: our problem. Ohio State Med J. 1960;56:1221-1223.
7. Esperer HD, Klein HU. 50 years of successful human defibrillation: a history of continuing progress. Herzschrittmacherther Elektrophysiol. 1997;8:262-265.
8. The Nuremberg Code. In: Trials of War Criminals before the Nuernberg Military Tribunals under Control Council Law No. 10. Vol 2. Washington, DC: US Government Printing Office; 1949:181-182.