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De Toronto a Toronto: Forjados a Ferro e Fogo

De Toronto a Toronto: Forjados a Ferro e Fogo

Da descoberta da insulina em Toronto, em 1922, à história de Manoel, diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 18 meses em Recife: um século de ciência, disciplina e amor que transformou uma sentença de morte em vida plena.
Por:
Amigo Tech
18 August 2026
min leitura

Este relato foi elaborado pelo Dr. Gustavo Carvalho e Fernando Raposo, com o auxílio da Amigo Intelligence, e é baseado em uma história real.

Existe uma enfermaria, em Toronto, no ano de 1922, em que a medicina ainda não tinha resposta para uma das sentenças mais cruéis que podiam cair sobre uma criança:

Diabetes.

Hoje a palavra cabe numa conversa qualquer. Cabe numa receita, num discreto sensor colado no braço, numa caneta de insulina, numa rotina escolar, numa festa de aniversário, numa viagem em família.

Naquela época, diabetes tipo 1 era quase uma condenação.

Não havia monitor. Não havia bomba. Não havia aplicativo. Não havia ninguém para ensinar, com calma, numa consulta, a contar carboidratos.

Não havia sequer insulina!

Havia apenas a fome.

A chamada dieta de inanição era a única arma disponível. Uma tentativa desesperada de comprar alguns meses de vida à custa de privar a criança de comida. As crianças comiam pouco ou quase nada, emagreciam bastante, definhavam. E os pais assistiam à vida do filho indo embora devagar, sem poder fazer nada.

A medicina conhecia a doença.

Mas ainda não conhecia a chave para o controle, quem diria a cura.

Até que, em Toronto, quatro homens abriram juntos uma das portas mais importantes da história da medicina.

Frederick Banting, um jovem cirurgião, teve a ideia. Charles Best, ainda estudante, ficou ao seu lado nas primeiras experiências. James Collip, o bioquímico, purificou o extrato até torná-lo seguro para um ser humano. E John Macleod, o professor, deu ao trabalho o rigor e a estrutura de que ele precisava.1,2

O primeiro extrato veio de pâncreas de cão. Depois, para dar conta da escala, veio o de boi e o de porco dos matadouros. E, ainda assim, a produção era mínima, basicamente artesanal.

O que eles descobriram ganhou o nome de insulina, do latim insula, "ilha", em homenagem às ilhotas de Langerhans, o pequeno arquipélago de células do pâncreas onde este hormônio é produzido.

O primeiro nome dessa virada foi Leonard Thompson. Tinha catorze anos. Estava internado no Hospital Geral de Toronto, consumido, à beira da morte. Em janeiro de 1922 recebeu a primeira dose de um extrato pancreático ainda impuro. Infelizmente, não funcionou. Collip refinou ainda mais a fórmula, e doze dias depois veio a segunda tentativa.

O açúcar baixou. A cetose recuou. O menino voltou de onde muitos jamais voltaram.

Óbvio que não era cura.

Era algo que, naquele instante, talvez valesse ainda mais. Era tempo. Tempo para crescer. Tempo para estudar. Tempo para brincar. Tempo para errar. Tempo para viver.

Mas a história que mais me impressiona tem um rosto de menina.

Elizabeth Hughes, filha de Charles Evans Hughes, Secretário de Estado dos Estados Unidos, um dos homens mais poderosos da América. Quando o diabetes a encontrou, ainda menina, ela revelou uma verdade dura: a doença não pergunta o sobrenome de ninguém. Era igualmente cruel para ricos e para pobres.

Elizabeth foi entregue aos cuidados do Dr. Frederick Allen, um dos maiores especialistas da época, e submetida ao seu regime de fome. Seguiu o tratamento com uma disciplina quase sobre-humana. Antes da doença pesava trinta e quatro quilos. Em 1922, já adolescente, pesava cerca de vinte. Era só couro e osso. Mal se levantava da cama. E, ainda assim, estava viva. Ainda assim, esperava que a ciência se desenvolvesse rápido o suficiente e chegasse a tempo para salvá-la.

Em julho de 1922, sua mãe, Antoinette, soube da substância nova que vinha de Toronto. Escreveu de próprio punho ao Dr. Banting, implorando uma vaga para a sua filha. A insulina ainda era raríssima, fabricada a partir de pâncreas macerado de boi e de porco trazidos dos matadouros. As agulhas eram grossas e dolorosas, o líquido turvo.

E o milagre aconteceu diante dos olhos do mundo. Em poucas semanas, a menina que definhava, à beira da morte, voltou a comer de verdade, voltou a ganhar peso, cor no rosto, força nas pernas. Atravessou o sombrio vale da morte. E venceu.

Elizabeth nunca quis ser a "garota da insulina". Escondeu a doença até de amigos próximos. Casou, teve três filhos, formou-se, viveu até os setenta e três anos. Recebeu cerca de quarenta e duas mil injeções ao longo da vida, e cada uma delas foi uma pequena vitória silenciosa sobre o destino. O seu maior triunfo foi não ter sobrevivido. Foi ter tido uma vida praticamente normal.2

Durante muitos anos, eu li essa história com o olhar de médico. Admirava a inteligência, a ousadia e a teimosia daqueles homens que transformaram uma doença fatal numa doença que se podia manejar.

Depois, infelizmente, fui obrigado a entendê-la de outro jeito.

Como pai.

Porque, quase um século depois da menina de Toronto, do outro lado do mundo, aqui em Recife, a palavra diabetes deixou de ser uma ideia escrita num livro e entrou para ficar na minha casa. Entrou na vida do meu pequeno filho Manoel.

E não entrou pela porta da frente.

Entrou disfarçada de catástrofe, sem que ninguém soubesse nomeá-la. Começou com uma pancreatite grave, uma inflamação violenta do pâncreas, provocada por um vírus. Um enterovírus Coxsackie B4, justamente o tipo de vírus que há décadas tem sido associado ao diabetes tipo 1.3-6 Mas o nome do inimigo só viria semanas mais tarde, de um exame de PCR feito em São Paulo, quando o meu filho já estava, por incrível que pareça, curado da infecção.

Antes disso, houve o desespero na UTI. Um bebê de um ano e meio piorando a cada dia, no limiar de ser intubado e uma equipe inteira sem cravar o diagnóstico. A pancreatite é a doença das mil faces: traiçoeira, rara nessa idade, e nos muito pequenos ela se esconde, difícil de reconhecer. Foi só no quinto dia de UTI, com a amilase acima de 500, que enfim demos nome ao que estava acontecendo.

Mas antes do nome, antes de qualquer exame, houve o que me restava quando a ciência ainda tateava no escuro: eu entreguei o meu filho a Deus. E foi Ele quem o segurou até a medicina chegar.

A infecção passou. Mas deixou uma sequela, uma herança realmente cruel. Como um incêndio que se apaga deixando a casa em ruínas, tudo indica que a reação autoimune provocada pelo vírus se voltou contra o próprio pâncreas e destruiu as células beta, as células das ilhotas de Langerhans que fabricam a insulina. As mesmas ilhotas que deram nome ao hormônio em 1922.

Com apenas um ano e meio de idade, o meu filho se tornou um diabético tipo 1.

O que veio depois foi uma vida de restrições que poucos conseguem imaginar. Manoel era pequeno demais, ainda, para usar as insulinas de longa duração, então a insulina vinha em injeções o dia inteiro. Ao acordar. Antes de comer. Depois de comer. De novo quando a medição vinha alta. E ele tinha fome, comia quase o dia todo. Nos piores dias de descontrole, as picadas chegavam a quase vinte. Cerca de dez era um dia bom, e a maioria ficava acima disso. Furos e mais furos, num corpo tão pequeno.

E não paravam nas injeções. Era também a lanceta a furar a ponta do dedo, sem descanso, para medir o açúcar: ao acordar, antes de comer, duas horas depois de comer, e mais uma vez a cada suspeita de que ele havia escapado da faixa segura. Quando enfim chegaram os sensores de medição contínua, ele nem assim largou a lanceta. Media para conferir se a máquina estava dizendo a verdade.

E, no entanto, havia nisso tudo uma misericórdia que a menina de Toronto nunca conheceu. Cada picada de insulina no Manoel doía pouco, quase nada. A ciência dos materiais nos deu agulhas hipodérmicas tão finas que a injeção chega a doer menos do que a espetada na ponta do dedo, aquela que ainda hoje é preciso dar para colher a gota de sangue e conferir o açúcar. Elizabeth não teve essa sorte. As agulhas dela eram grossas e reesterilizadas vez após vez, e cada uma das suas mais de quarenta mil injeções foi um pequeno suplício. O peso do Manoel era a frequência, era a doença. O dela era isso e ainda a dor de cada agulhada que rasgava sua pele. Ela sofreu, só para continuar viva, muito mais do que qualquer diabético dos nossos dias.

Houve uma época, por volta dos seis anos, em que a sua hemoglobina glicada, a média do açúcar dos últimos meses, chegou a treze, um número que faz qualquer médico empalidecer. Eram três, quatro internamentos por ano, sempre graves. E havia os comas e as convulsões. Doze, dezoito, vinte e quatro horas em coma. O último deles foi aos oito anos.

Quando ele tinha pouco mais de três anos, houve até quem me dissesse, com a melhor das intenções, que eu deveria me desapegar e preparar para perdê-lo. Que um menino com diabetes tão grave, com tantas injeções por dia, no Nordeste do Brasil, daquele tempo, dificilmente chegaria à vida adulta, e que um dia ele entraria em coma e não voltaria mais. Era o conselho de um médico amigo, alguém que gostava de mim e tinha medo por mim, e que havia perdido um parente para essa mesma doença, ainda antes dos dezesseis anos. Ele não falava só por pessimismo. Falava por luto.

Eu nunca aceitei a ideia de simplesmente desistir. Principalmente desistir sem lutar.

A minha resposta foi trabalhar. Calcular. Estudar muito, madrugada adentro, atrás de cada esquema, cada dose, cada cenário. Fui buscar ciência onde ela estivesse, até nos blogs estrangeiros das T1 mothers, onde aprendi e ensinei muito truque e muita receita, ombro a ombro com aquelas mães. Um único objetivo: fazer o meu filho sofrer menos e chegar à vida adulta capaz de cuidar de si.

E foi aí que tomei a decisão mais difícil da minha vida de pai.

A partir dos oito anos, Manoel só comeria se ele mesmo calculasse como e quando poderia comer. O garoto magrinho aprendeu a contar os carboidratos de cada prato e a resolver uma regra de três composta para descobrir, a partir da combinação de vários alimentos, a própria dose de insulina. E aprendeu a ir até o fim sozinho: além de calcular, preparava a dose e aplicava a própria injeção, com as próprias mãos. Se acertasse a conta, comia. Se errasse, ficava com fome, até refazer o cálculo e acertar. A rede de segurança nunca saía da mesa: a glicose de resgate ao alcance da mão. A fome era pedagógica, jamais risco.

Luciana, a mãe dele, sofria. Achava que eu era duro demais com um menino tão pequeno e franzino. E eu entendia a dor dela. Mais de uma vez foi o juízo dela que segurou a minha mão quando a minha dureza ia longe demais. O equilíbrio da casa era dos dois. Mas sabia, lá no fundo, que aquele era o melhor caminho. Depois que ele aprendeu, o seu controle deu um salto gigantesco.

E não era só a conta. Era a comida em si. Cedo Manoel aprendeu a fugir dos alimentos ultraprocessados. O açúcar escondido e a farinha refinada disparam a glicemia num pico rápido que a insulina injetada não consegue acompanhar, e o resultado é uma montanha-russa perigosa. Comida de verdade estabiliza. Ultraprocessado sabota. Escolher bem o que entrava no prato virou parte do tratamento, tão importante quanto a dose de insulina.

Não criamos um menino para ser bajulado e protegido do mundo, mas, um menino destemido para enfrentar o mundo, todos os dias, várias vezes por dia, se fosse necessário. Forjado a ferro e fogo. Longe do colo que sufoca, longe da ideia de que ser diabético é ser frágil ou ser uma vítima do destino. Um menino moldado para resolver mil problemas antes do almoço, e para sair mais forte de cada um deles.

Aquela dureza era o mais puro amor. Talvez a forma mais difícil de amar que existe: a que abre mão de ser o pai querido hoje para garantir que o filho esteja vivo, e livre, amanhã.

Penso em Manoel como numa katana. O aço que vira uma preciosa espada é o aço que mais apanha. É dobrado, batido e mergulhado no fogo incontáveis vezes, e é justamente esse castigo que lhe dá a têmpera, o gume e o valor que nenhum metal macio jamais terá. Ele foi essa lâmina. Cada cálculo cobrado, cada espera com fome até acertar a conta, cada noite difícil em coma, foi uma martelada no fogo. E o que saiu dali não foi um indivíduo quebrado. Foi uma katana afiada.

E houve ainda uma outra batalha, travada em paralelo à do açúcar.

Por volta dos quatro anos, o Manoel parou de acompanhar a curva de crescimento dos meninos da idade dele. A médica, sempre atenta, foi franca e foi dura. Afirmou que, sem o hormônio de crescimento, o GH, aquele menino não passaria de um metro e cinquenta. No máximo, com muita sorte, um metro e cinquenta e cinco. O déficit era grande, ele estava bem abaixo da curva.7

E, de novo, decidimos contra o caminho que parecia óbvio.

Porque o GH cobra um alto preço escondido de quem tem diabetes. É um hormônio contrarregulador: joga a glicose para cima e reduz a ação da insulina. Não por acaso, a própria puberdade, com a sua onda natural de GH, costuma desarrumar bastante o controle de qualquer diabético tipo 1.8 Adicionar GH, num menino que já vivia num fio de navalha, com dez a vinte injeções por dia, seria como atear fogo à gasolina. Eu não sabia se ele suportaria bem mais aquele fator de caos. E sinceramente não quis arriscar.

A médica insistiu que, sem o hormônio, ele não cresceria. Foi quando tomei mais uma decisão radical: se não seria com hormônio, seria com suor, muito suor e disciplina. Apostei que o Manoel ia crescer pelo esporte.

Botei uma barra fixa no teto do quarto dele. Luciana achou um horror, uma barra pendurada no quarto de um menino tão franzino. Ele começou fazendo três. Logo eram dez. Todos os dias, dez barras, sem falta. E eu, sedentário, que mal fazia três, puxava junto no início, aprendendo com o meu próprio filho. Botei ele na bicicleta, ao meu lado. Botei ele no mar, na vela. E botei ele nas artes marciais, uma atrás da outra: caratê, taekwondo, muay thai.

Nunca foi exercício em excesso. Sempre na medida da idade dele e no ritmo que mantinha a glicemia estável, porque, no diabético, exagero atrapalha em vez de ajudar.

E aqui está o que quase ninguém entende. Aquele esporte todo não construía apenas um corpo. Construía, além da mente forte, o melhor aliado que existe contra o diabetes tipo 1: músculo. O músculo é uma esponja de açúcar, um destino para a glicose muito mais eficiente do que a gordura. Quanto mais músculo e menos gordura, melhor funciona o pouco de sensibilidade à insulina que o corpo ainda tem, e mais estável fica a glicemia. Cada barra, cada pedalada, cada golpe treinado era também, sem que ele soubesse, uma dose de estabilidade. E corpo estável é corpo que cresce. O esporte, no fundo, virou parte importante do tratamento.9

A barra ainda tinha um bônus. Mantinha a coluna alongada e a postura ereta, e o menino aprendeu a ficar de pé na sua altura plena, sem nunca encolher.

E o corpo respondeu.

Sim, além de tudo, havia as noites. Dessas, ninguém fala.

A mesma Luciana que me achava duro demais foi quem, ao meu lado, travou a parte mais silenciosa dessa guerra. Uma mulher de uma valentia e de uma dedicação que eu nunca soube como agradecer, só admirar. Manoel dormia no quarto dele, nós no nosso, e todas as noites, sem uma única exceção, um de nós dois levantava, pelo menos, duas vezes para checá-lo. Todas as noites das nossas vidas, até ele completar dezesseis anos.

E as quedas de glicose dele eram das piores que existem. Manoel tem uma das formas mais severas do diabetes tipo 1, aquela em que o corpo quase não libera glucagon quando o açúcar cai, o hormônio que, numa pessoa comum, dispara para segurar a queda. Sem esse freio natural, as hipoglicemias dele afundavam mais rápido e mais fundo do que as de um diabético comum. E o glucagon de emergência, o que a maioria injeta para resgatar, também não funcionava bem nele. Por isso o meu trunfo era outro: ampolas de glicose a 50% que eu guardava em casa e esguichava direto na boca dele, ainda desperto o bastante para engolir, 10 ml de uma vez, para elevar rápido o açúcar. Para os picos altos, no outro extremo, uma dose de insulina rápida, calculada ali mesmo, no breu do quarto.

E, ainda assim, mesmo acordando duas vezes por noite, mesmo com tudo aquilo, antes das bombas o coma, às vezes seguido de convulsão, vinha. E cada vez que eu via o meu filho escorregar de novo, depois de tanto esforço, alguma coisa dentro de nós se quebrava.

E então a ciência, a mesma que devolveu a vida a Elizabeth em 1922, voltou a escrever a história do meu filho. Mas nunca sozinha: a ferramenta só valia nas mãos do treino e da disciplina que a empunhavam.

Vieram as bombas de insulina, e Manoel foi um dos primeiros a usá-las. A partir delas, o coma e as convulsões viraram passado. Graças a Deus, nunca mais.

Não paramos por aí. A outra metade do amor foi a engenhosidade. Ao lado de um cientista da UFPE que, por uma dessas ironias da vida, também era pai de uma criança diabética, montamos para o Manoel um dos primeiros sistemas caseiros de monitoramento de glicose à distância de que tive notícia no Brasil. Era artesanal e teimoso, como toda boa ideia: um relógio quadrado da Sony, daqueles com NFC de pagamento, hackeado e preso por uma cinta ao braço dele, lia o sensor e jogava o número na internet. Eu via a glicemia do meu filho no meu celular 24h por dia, em tempo real, fosse do quarto ao lado ou do outro lado do mundo. Aquele monitoramento nos devolveu um pouco da tranquilidade e do sono perdido, ainda que nunca o sono inteiro.

E foi isso que me permitiu abrir a mão.

Aos quinze anos, Manoel embarcou com a irmã mais velha e foi viver um sonho de mais de um mês em Toronto. De Recife a Toronto, numa só viagem, o meu filho refez a linha que a história havia levado um século inteiro para traçar. Justamente Toronto, a cidade onde tudo havia começado, onde a insulina salvara a pequena Elizabeth quase cem anos antes. Agora era o meu filho quem caminhava por aquelas ruas, mantido vivo pela mesma descoberta, cuidando de si sozinho, com a bomba e com o sensor, longe de casa, enquanto um fio invisível de vigilância atravessava o oceano e me dizia, 24h por dia, que estava tudo bem.

E então veio o gesto que mais me orgulha.

Aos dezesseis, de volta ao Brasil, ele desligou o meu monitoramento. Reivindicou, com todas as letras, o seu direito à privacidade glicêmica. Tinha uma namorada, tinha a própria vida, e entendia que a sua intimidade, inclusive uma eventual queda de açúcar num momento só seu, não era mais da conta de ninguém. Havíamos forjado um jovem para ser independente. No dia em que ele me tirou de cima dos próprios ombros, soube que tinha conseguido.

E veio com isso uma consequência que eu não esperava. Pela primeira vez em quase quinze anos, eu e a Luciana voltamos a dormir uma noite inteira.

E a tecnologia não parou. As bombas de insulina ficaram menores e mais inteligentes, e hoje muitas conversam em tempo real com o sensor de glicose, formando o que a medicina chama de closed loop, o circuito fechado entre o sensor e a bomba. E não é só a inteligência artificial de que tanto se fala. São algoritmos extremamente calibrados, que leem o açúcar minuto a minuto, autoajustam a infusão e calculam sozinhos as doses. E a inteligência artificial começa agora a entrar de vez nesse circuito, aprendendo os padrões de cada corpo para antecipar as quedas e as subidas antes que elas aconteçam. É quase um pâncreas artificial de bolso, que tira das costas do paciente boa parte do cálculo exaustivo que o Manoel sempre fez na unha.11

As mais avançadas até tentam imitar o pâncreas dos dois lados, com uma câmara de insulina e outra de glucagon, justo o que faltaria a alguém como o Manoel, que quase não o libera. Mas ainda são promessa mais que rotina.12

E, no entanto, foi para longe da bomba que ele acabou indo. Nos últimos três anos, comendo mais e ganhando massa muscular, ele passou a precisar de doses cada vez maiores de insulina nas refeições. E o ponto fixo da bomba, o mesmo lugar do corpo por vários dias, parava de absorver bem tanta insulina de uma vez. A bomba deixou de dar conta das correções das refeições. Então ele passou a aplicar as doses das refeições de caneta, alternando os pontos do corpo para a insulina funcionar de verdade, e a usar a bomba apenas para o basal. E, se era só para o basal, a solução era mais simples ainda: trocou a bomba por uma insulina de longuíssima duração. Resolveu.

Hoje se equilibra com duas insulinas apenas, uma basal, a degludeca, e uma ultrarrápida para as refeições, a asparte, guiado pelos sensores de monitoramento contínuo, os CGM, que leem o açúcar minuto a minuto. Controla a própria glicemia melhor do que muita máquina já controlou.

E o esporte, que forjou o corpo e a mente do Manoel e estabilizou o seu diabetes, hoje faz o mesmo por multidões pelo mundo. Ele está longe de ser exceção.

O diabetes tipo 1 deixou de ser uma barreira para o esporte e virou palco. Neste ano de 2026, o alemão Alexander Zverev, diabético tipo 1 desde a infância, venceu Roland Garros, o seu primeiro título de Grand Slam, e parou no meio da final para checar o açúcar e aplicar insulina antes de voltar à quadra. Anos antes, no mesmo torneio, ele havia sido proibido de fazer exatamente isso, numa polêmica que só se encerrou quando ficou claro que, para ele, aquilo não era vantagem nenhuma. Era sobreviver.

E não é só ele. A Team Novo Nordisk, primeira equipe profissional de ciclismo formada só por diabéticos tipo 1, disputa as maiores provas do planeta. É a prova viva de que cem anos de ciência tiraram o diabético da beira da morte e o levaram à elite do esporte mundial.

E o resultado não é um jovem mirrado e frágil que o imaginário costuma associar ao diabetes, nem o rapaz de um metro e cinquenta que a medicina havia sentenciado.

É um homem de um metro e setenta e três. A mãe tem cerca de um metro e sessenta e cinco e eu um metro e setenta e seis. Ele chegou quase à minha altura sem jamais ter tomado uma única dose de hormônio de crescimento, e ficou mais forte que o pai, com um corpo que ninguém associaria a um diabético tipo 1.

E não é só o corpo. É um rapaz inteligente e inteiro. Tem o próprio veleiro, e sai para o mar sempre que a vida deixa. Morou dois meses no Japão depois de vencer um concurso, por mérito próprio. Aos vinte e três anos, estuda Engenharia da Computação no CIn da UFPE, e é tech líder da equipe de aplicativos da Amigo Tech, onde trabalha desde os dezenove, antes mesmo de entrar na faculdade.


E há um detalhe que eu conto com satisfação e humildade. Foi por causa dele que me chamaram para a Amigo Tech. O filho abriu a porta para o pai. Dizem por lá que, "se o filho presta, o pai não deve ser de todo ruim".

Por isso esta história, que começou numa enfermaria de Toronto há mais de cem anos, termina, para mim, numa mesa de jantar em Recife. Entre um ponto e outro há um oceano e há um século inteiro. Mas é a mesma linha.

Cada sensor que Manoel usa hoje conversa, em silêncio, com aquela enfermaria antiga. Cada dose que ele calcula sozinho carrega dentro de si um século de ciência, de erros corrigidos, de pesquisadores teimosos, de famílias que confiaram, de pais que se recusaram a aceitar a estatística.

A insulina, a bomba, o sensor: nada disso foi a cura. Foram a ferramenta. O treino e a disciplina a empunharam. E a força para tanta luta, ano após ano, veio de Deus. Porque Deus também é isso: é ciência, é beleza, é vida.

A insulina nunca foi apenas um remédio. Ela é uma autorização para continuar.

Elizabeth recebeu a sua, em 1922, e viveu.

Manoel recebeu a sua, e venceu.

E o menino que, segundo todas as previsões, não deveria crescer, cresceu. Virou homem. E hoje, quando o vejo calcular a própria vida com a serenidade de quem domina o próprio destino, eu sei que a medicina, quando funciona de verdade, não entrega apenas sobrevivência.

Entrega futuro e qualidade de vida.

--
Dr. Gustavo Carvalho, MD, MBA, MSc, PhD, é Cirurgião Geral, Professor Adjunto de Cirurgia Geral da UPE, pós-graduado em Cirurgia Digestiva pela Universidade Keio (Japão) e Consultor de Inteligência Artificial da Amigo Tech.

Fernando Raposo é engenheiro, fundador e CEO da Amigo Tech.

O texto tem caráter informativo e literário; não constitui aconselhamento médico.

Instagram: @doutorgustavocarvalho


Referências (verificadas no PubMed, PMID e DOI)

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